Nossos Autores 06 jul 2012

A falsa sensação de felicidade

Clarissa Corrêa, na revista TPM

Lembro que antigamente eu frequentava uma sala de bate-papo na internet. Lá, era um grande grupo de amigos e alguns casais virtuais. Inevitavelmente, ao conhecer uma pessoa, vinha a clássica pergunta “como você é?”. As respostas eram sempre lindas. Sou loira, tenho olhos azuis, aproximadamente 1.72, 55 quilos, cabelo comprido. Sou moreno, tenho 1.85, 79 quilos, cabelo liso, olhos castanhos. E o que você faz? Sou administrador de empresas, moro em São Paulo, nos Jardins. Sou advogada, moro no rio de Janeiro, no Leblon. Ninguém era feio e vivia de aluguel. Todo mundo tinha curso superior e não passava perrengue.

Com o passar do tempo, a ficha (e as máscaras) começaram a cair. Um cara, que fazia o maior sucesso e encantava várias mulheres (inclusive eu) era na verdade uma mulher. Sim, uma mulher. Muita gente namorou ou deu trela virtualmente para o tal cara (que enviava fotos de um sujeito lindo que depois descobrimos que era modelo da Richard’s). Até eu. E na verdade o cara era uma mulher, casada, com dois filhos, que mora no interior de São Paulo. Um outro cara, que chegou a conhecer uma menina, era casado. Uma guria deu mole pra um cara, que chegou a separar da mulher e largar tudo pra ficar com ela. Pergunta se ela ficou com ele? O jogo era só conquistar a homarada. Depois, ela dava um grande e belo pé na bunda. Virtual, é claro. Mas o que é virtual também dói. Porque ser traído não é legal, ser enganado não é bonito, ser feito de bobo não é uma coisa boa.

Me espanto como a internet é poderosa. E posso afirmar que já fiz bons amigos através dela. Conheci gente muito boa. Gente que vi ao vivo, olhei no olho e troquei confidências. Porque acho que as relações precisam disso, dessa troca, desse estar perto. Não estou dizendo que o virtual não é verdadeiro. Mas ele é cheio de mentiras e labirintos escuros. O Facebook, por exemplo, é um palco de autoajuda.

Lá todo mundo ajuda as velhinhas com sacolas, os cachorros de rua e os menos favorecidos. Na internet todo mundo é legal, querido, do bem, simpático. É ou não é? Tem gente que passa por você na rua e não cumprimenta, mas curte qualquer besteira que você posta na sua página. Tem gente que inclusive já falou mal de você, mas pede para ser sua “amiga” no Facebook. Tem gente que não te suporta, mas te segue no Twitter para saber os seus passos. É uma hipocrisia generalizada.

Ah, se o mundo fosse igual ao Facebook! Tenho certeza que não existiria injustiça, fome e disputa de beleza. Então me pergunto: que parte eu perdi? Pois se as pessoas são tão boas assim o mundo deveria ser melhor, certo? Ou pelo menos mais justo.

Na internet só existe felicidade e festerê. Ninguém é invejoso ou desleal. Todo mundo é honesto, do bem, limpinho e bacana. Por sinal, na internet a vida de todo mundo é muito boa. Viagens, festas, restaurantes caros, compras e amigos. Uma vida tão boa que até o Eike Batista ficaria com invejinha. Branca, é claro. Porque na internet a inveja só tem uma cor.

Clarissa Corrêa é colunista da TPM e autora de Para todos os amores errados (Gutenberg)

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